quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Corpo

Corpo ferido na carne
Manchado das angústias da rua
Marcado por cicatrizes profundas
Corpo sem alma, sem sol e sem lua...

Imóvel no banco do trem
Um corpo embriagado de morte
Humilhado por outros corpos
Também desprovidos da sorte
Que muitos poucos têm...

Corpo de carne e osso
Igual a dos seus semelhantes
Maltratado pela falta de oportunidade
Nem todos têm a grande chance...

Pobre corpo humano
Mutilado pelo abandono
Vítima do lucro do capital
Provavelmente sem nome
Apenas mais um marginal...




Poema de João Crispim Victorio.
Livro: Sobre o Trabalho que falo...

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Harmonia

Sol e chuva
Juntos, possível arco-íris
Cores em harmonia
Mas há aquele que não vê...

Estrelas e lua
Juntas, noite dos amantes
Vidas em harmonia
Mas há aquele que não vê...

Flores e borboletas
Juntas, preservação do jardim
Natureza em harmonia
Mas há aquele que não vê...

O que seria da humanidade
Não fossem as cores?

Das cores não fosse a visão?

O que seria das borboletas
Não fossem as flores?

Das flores não fosse a emoção?

O que seria da vida
Se todos pensassem só em dinheiro?


Poema de João Crispim Victorio.
Livro: Sobre o Rio que falo...

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Os excluídos e as leis brasileiras.
João Crispim Victorio[i]

Está tramitando no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 3.547/2015, que Altera o Art. 26-A da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, incluindo a História e a Cultura Cigana no currículo oficial da rede de ensino.  O PL em questão vem substituir a Lei 11.645/2008, que alterou o mesmo artigo da Lei nº 9.394, incluindo a História e a Cultura Indígena no currículo oficial da rede de ensino. Já a Lei 11.645/2008, havia substituído, anteriormente, a Lei 10.639/2003, que nasceu no intuito de incluir no currículo oficial, somente, a obrigatoriedade da História e da Cultura Afro-Brasileira.
A alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB/96, proposta por meio do PL nº 3.547/2015, ocorre no Artigo 26-A, especificamente nos parágrafos primeiro e segundo que passará vigorar com a seguinte redação:


“Art. 26–A Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna–se obrigatório o estudo da história e cultura afro–brasileira, indígena e cigana.

§ 1º O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses três grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a história cigana, a luta dos negros, dos ciganos e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra, cigana e indígena brasileira e o negro, o cigano e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.

§ 2º Os conteúdos referentes à história e cultura afro–brasileira, dos povos ciganos e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras”.

É preciso dizer, aqui, que não temos nada contra a inclusão da História e da Cultura dos povos ciganos no texto atual da LDB/96. Pelo contrário, estamos de acordo com o deputado[1], autor do referido Projeto de Lei, que justifica sua ação com o seguinte argumento histórico:

“Os povos ciganos sempre vivenciaram situação de extremo preconceito e exclusão social, onde quer que estejam. A cultura cigana sempre foi desconsiderada e desrespeitada, a imagem construída socialmente sobre o povo cigano é de total descompasso com a realidade, eivada na discriminação que os acompanham por séculos. Desde a escravização por 5 séculos na região da atual Romênia aos horrores impostos nos campos de concentrações nazistas de Adolf Hitler”.

A história mostra a necessidade de se fazer o devido reconhecimento ao povo cigano, mas a questão é que no Brasil, historicamente, temos muitas leis que não são colocadas em práticas. Pior, as nossas leis, em sua maioria, giram em torno dos interesses individuais dos que detêm o poder do capital, o poder político e o poder da informação, sejamos justos, esse não parece ser o caso do autor da PL nº 3.547/2015.
 Nossa história mostra que as nossas leis sempre foram e, ainda as são elaboradas por parlamentares, em sua maioria, representantes das elites financeira e intelectual. Neste sentido, estamos carecendo de gente no parlamento brasileiro que pense, defenda e pratique o bem coletivo. Gente que venha somar em defesa das causas dos mais pobres e oprimidos, que ajude mobilizar a população para fazer valer as leis que, pelo menos, minimize o fosso da desigualdade social[2].
O projeto de Lei nº 3.547/2015, modifica a Lei nº 11.645/2008, que modificou Lei no 10.639/2003, que alterou o Artigo 26-A da Lei nº 9.394/1996. Estamos caminhando para 15 anos da Lei nº 10.639/2003 e 22 anos da entrada em vigor da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e não conseguimos atingir o nosso primeiro objetivo que é o de formar professores capazes de aprofundar as temáticas afro-brasileira e indígenas, quiçá, agora, a cigana. Então, será que acrescentando mais um grupo de excluídos a lei vai ser colocada em prática? Ou todos os grupos étnicos aqui citados vão continuar sendo apenas figuras estampadas nos livros didáticos como se não existissem de verdade? Será que devemos continuar negando a importante contribuição dessas culturas em nossa sociedade? Bom, as leis são importantes, mas o mais importante mesmo é colocá-las em prática.
Os indígenas e os negros, têm no calendário brasileiro datas distintas de homenagens. Façamos, então, dessas datas, não só comemorações, mas, também, reflexões sobre os problemas vividos no cotidiano e luta pela vida. Para tanto, não basta colocar penas na cabeça ou fazer pintura no rosto e no corpo, é preciso muito mais. É preciso recuperar a verdadeira história desses povos e denunciar o descaso que sofrem do poder público, o preconceito e discriminação suscitada por uma minoria da população que age, segundo seus interesses próprios, como por exemplo, a ganância de se apropriarem das terras indígenas.
Afinal, temos muito a aprender, a compartilhar e vivenciar com todos esses povos. Pois, o futuro de um povo depende da própria história que constrói.




Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2017.






[1] Helder Ignácio Salomão é deputado federal pelo PT do Espírito Santo.

[2] Neste contexto, desigualdade social é o desequilíbrio econômico causado pela distribuição desigual da renda na sociedade e a falta de investimentos em políticas sociais, ou seja, poucos ficam com muito e muitos ficam com pouco. Isso, afeta diretamente as pessoas causando diferentes padrões de vida em um mesmo país. Os problemas da desigualdade social se configuram, principalmente na falta de educação básica e superior de qualidade, no desemprego, na falta de saneamento básico, de saúde e na ausência de projetos culturais nas periferias das cidades.
No Brasil, a desigualdade social é gritante e afeta a maioria do povo brasileiro. Vivemos uma contradição absurda, pois, estamos entre os dez países com o Produto Interno Bruto-PIB mais alto do mundo e somos o oitavo país com maior índice de desigualdade social e econômica do planeta. Apesar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad-2011) apresentar resultados que mostram uma diminuição da pobreza no país. 





[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

25 de outubro:

Celebração cristã dos irmãos gêmeos Crispim e Crispiniano
padroeiros dos sapateiros.

Peço Licença aos Irmãos Crispim e Crispiniano e a Todos os Filhos de Fé!!! 

Gloria seja sempre dada aos grandes mártires da fé, que através dos séculos nos deram sempre exemplo de santidade e espiritualidade. Concedei-nos, Deus onipotente, sermos também nós agraciados com o dom da visão sobrenatural de Deus.

São Crispim e São Cipriano, rogai por nós.






Histórico de São Crispim e Crispiniano 

Crispim e Crispiniano eram irmãos de origem romana. Cresceram juntos e converteram-se ao cristianismo na adolescência. Eram muito populares, caridosos, e pregavam com ardor a fé que abraçaram.
Os irmãos eram sapateiros e acompanhavam São Quintino em sua viagem a França, tirando o seu sustento fazendo sapatos. A tradição diz que eles eram estudiosos da doutrina cristã e eram muito bons pregadores.
Quando alcançaram o território francês, os dois irmãos estabeleceram-se na cidade de Soissons. Lá, seguiram uma rotina de dupla jornada, isto é, de dia eram missionários e à noite, em vez de dormir, trabalhavam numa oficina de calçados para sustentar-se e continuar fazendo caridade aos pobres.
Quando a cruel perseguição imposta por Roma chegou a Soissons, era época do imperador Diocleciano e a Gália estava sob o governo de Rictiovarus. Quando foram presos e levados presença de Rictiovarus, que detestava os cristãos; Crispim e Crispiniano deixaram Rictiovarus tão nervoso com sua argumentação sólida e perfeita sobre Jesus, que Rictiovarus cometeu suicídio.
Os dois irmãos foram acusados e presos. Seus carrascos os torturaram até o limite, exigindo que abandonassem publicamente a fé cristã. Como não o fizeram, foram friamente degolados, ganhando a coroa do martírio.
O co-imperador Maximiano (286-305) furioso ordenou a sua morte imediata por decapitação em 286 DC.
As tradições seculares contam que, durante a fuga, na noite de Natal, os irmãos Crispim e Crispiniano batiam nas portas buscando refúgio, mas ninguém os atendia. Finalmente, foram abrigados por uma pobre viúva que vivia com um filho. Agradecidos a Deus, quiseram recompensá-la fazendo um novo par de sapatos para o rapazinho.
Trabalharam rápido e deixaram o presente perto da lareira. Mas antes de partir, enquanto todos ainda dormiam, Crispim e Crispiniano rezaram pedindo amparo da Providência Divina para aquela viúva e o filho. Ao amanhecer, viram que os dois tinham desaparecido e encontraram o par de sapatos cheio de moedas.
Eles são os padroeiros dos fabricantes de sapatos e dos sapateiros e foram muito populares na Idade Média. Na tradição da Igreja inglesa é dito que eles viveram por algum tempo em Faversham, Kent, Inglaterra.
As relíquias dos corpos desses dois nobres romanos mártires estavam sepultadas na belíssima igreja de Soissons, construída no século VI. Depois, parte delas foi transportada para Roma, onde foram guardadas na igreja de São Lourenço da via Panisperna.
Celebram-se os santos Crispim e Crispiniano como padroeiros dos sapateiros no dia 25 de outubro. Essa profissão, uma das mais antigas da humanidade, era muito discriminada, por estar sempre associada ao trabalho dos curtidores e carniceiros. Mas o cristianismo mudou a visão e ela foi resgatada graças ao surgimento dos dois santos sapateiros, chamados de mártires franceses.
Na arte litúrgica, eles são mostrados segurando sapatos ou ferramentas de sapateiro.
Nas festas de São Cosme, Damião e Doum, a duração costuma ser durante todo um mês, iniciando a 27 de setembro (Cosme e Damião) e terminando a 25 de outubro (Crispim e Crispiniano), devido a ligação espiritual que há entre Crispim e Crispiniano com os Santos gêmeos, pela sincretização que houve destes santos católicos com as crianças na umbanda, e com os ibejis, ou erês (nome dado pelos nagôs aos santos-meninos que têm as mesmas missões).

Hino a São Crispim e São Crispiniano

Dois exemplos da Santa Humildade,
Que renega o fastígio do mundo,
Trocam fausto, riquezas, vaidade
Pelo amor do trabalho fecundo.

São Crispim, nosso provido guia!
Crispiniano, da cruz mártir santo!
Consegui que possamos, um dia,
Repetir lá no Céu este canto!
A oficina dos santos obreiros
É, então, um sacrário de luz,
Onde todos acorrem ligeiros
Ao chamado da voz de Jesus.

Mas dos ímpios o féro delírio,
Aos clarões da verdade singela,
Os dois santos conduz ao martirio,
Que milagres de Fé mais revela.
Coroados, por fim, com as palmas,
Que aos justos reserva o altar,
Jubilosas estão nossas almas
Seus louvores e glória a cantar.


Oração a São Crispim e Crispiniano

Oh! Deus, que com tão inefável bondade inspirastes a vossos fiéis servos Crispim e Crispiniano a renúncia dos bens terrenos e o amor das espirituais delícias, o horror das mundanas vaidades e os encantos da eterna bem-aventurança, o desprezo das galas transitórias e gosto dos trabalhos humildes, concedei-nos, pela intercessão destes ilustres Mártires a graça da verdadeira sabedoria, desprezando tudo o que é efêmero e caduco para amarmos somente o que é salutar e eterna. E vós inclitos Patronos, que tão heroicamente empenhastes a vossa vida para atear na terra o amor de Jesus, intercedei por nós, para que seguindo o vosso exemplo possamos honrar sempre o nome cristão.


Por Jesus Cristo Senhor Nosso. Assim seja.



http://www.genuinaumbanda.com.br





sexta-feira, 10 de novembro de 2017

           Moço

            I

Tenho mais idade do que devia
Claro, não sou nenhum menino!
Vivi tantas coisas intensas
Transitei por muitos lugares
Cidades com grandes ruas
Becos estreitos de favelas
Enquanto você ficava em casa
Jogando videogame ou assistindo tv...

Vendi picolé na estação de trem
Com os hippies aprendi artesanato
A me virar nas areias das belas praias
Rio de muita gente, das várias raças
Da zona sul à costa verde
Só conhece quem viaja...

Sempre dei um jeito de frequentar a sala de aula
Cresci de forma contrária à sua
Entre os ignorantes amontoados da periferia
Curtindo churrasquinho de rua
Sobrevivi sem perder a ternura
Subi ao céu e desci ao inferno
Como muita gente boa!
Só não fiz a opção certada – Acredito!
Por isso, estou vivo agora...

                  II

Tenho mais idade do que devia
No conceito dessa sociedade mesquinha
Completei meus estudos no horário noturno
Trabalhando e estudando fiz o tempo acontecer
Não desisti, apesar das dificuldades que sofri
Com tudo só defendi meu querer...

Conheci muitas mulheres
Algumas da minha vida fizeram parte
No caminho encontrei gente interessante
Poucas, hoje, chamo amigas!
Mas me decepcionei bastante...

Desde muito moço frequento a Lapa
Vi a malandragem na noite
O trabalhador sem gravata de dia
Sozinho lamentando a vida
Igual ao sujeito que vive na boemia...

Mesmo ficando longe de onde morava
Frequentei teatros e casas noturnas
Grandes praças com chafariz
Projetos culturais em locais públicos
Espetáculos que mereciam bis...

Passei a me interessar por Poesia
Política e Filosofia são minhas guias
Buscava assim amadurecer minha Ideologia
Viajei a outros Estados da federação
Atravessei o atlântico de avião
Cheguei ao velho mundo
Ao centro dos acontecimentos
O coração!

                 III

Tenho mais idade do que devia
É o que percebo quando penso seguir em frente
A Universidade também exclui por idade
As vagas, na verdade, já estão preenchidas
A vida acadêmica é cara para a maioria da gente
Um círculo vicioso que aos poucos chega ao final
Pobre burguês que quer tudo para si
Não entende da Terra o sinal...

Há vinte anos no mesmo emprego
Sou um profissional bem-sucedido
Porém, sem dinheiro!
Cumpro com meus deveres
Cobro com veemência meus direitos
Priorizo o trabalhador organizado
Sou presente no Sindicato
Aceito os novos desafios...

Tenho mais idade do que devia
É o que vejo no olhar de muita gente
Aquelas não assumidas!
Reparam as minhas roupas desbotadas
O meu tênis já descorado
As minhas sandálias já surradas
O contraste com meus cabelos grisalhos
Reparam o meu modo de ser
O meu jeito de falar
O contraste com meu rosto já cansado...

Imagino o que dizem
Esta gente fria, claro!
Ao me ver nas ruas de mãos dadas
Ao me ver no banco da praça
Beijar, apaixonado, minha namorada
Quanta hipocrisia!

Poema de João Crispim Victorio.
Livro: Sobre o Trabalho que Falo...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Perspectivas

Sobre a cabeça nuvens cinzentas
Fim de mais um dia
Corpo prostrado
Cansado do trabalho
Imobilidade total...

Urubus voam ao redor
Fúnebre ritual...

O tímido sol recolhe-se de vez
Facilita a chuva
O corpo ainda quente
Sente o frio vento
Perene invadindo a alma...

Quadro sombrio
Pensamentos desarticulados...

Sem encontrar respostas
Fogem todas as perspectivas
Uma vida sem objetivos
É um rio que não chega ao mar
Perde todo o sentido...

Aos poucos morre
Deixando um vazio...


Poema de João Crispim Victorio.
Livro: Sobre o Trabalho que Falo...

domingo, 22 de outubro de 2017

Reflexões...

Um indivíduo
Usa um outro indivíduo
Que se deixa usar
Porque usa o outro também...

Neste jogo de cinismo
Mau-caratismo e hipocrisia
Tais indivíduos egoístas
Tornam-se escravos da vaidade...

Alucinados por vis metais
Substituem valores fundamentais
Falo de moral e de ética
Tão necessários à pessoa...

Uma pessoa
Precisa da verdade
A mentira é coisa do diabo
Divisões já temos demais...

Caso esqueçamos da partilha
A vida fica sem sentido
Quem perde com tudo isso?
O coletivo...

Rio de Janeiro, 22 de outubro de 2017



João Crispim Victorio é professor e poeta.

Corpo Corpo ferido na carne Manchado das angústias da rua Marcado por cicatrizes profundas Corpo sem alma, sem sol e sem lua... ...